ENTREVISTA 14 Na minha perspetiva, a metalomecânica portuguesa tem oportunidades para valorizar competências em engenharia, qualidade, flexibilidade e produção de elevada exigência. Uma empresa pode utilizar o conhecimento que já possui do mercado para responder a novos clientes nas áreas da energia, mobilidade ou defesa. As feiras e as ações de prospeção podem ser importantes dentro dessa estratégia. Gostaria de ver cada vez mais empresas a usar os apoios para dar esse passo: desenvolver soluções de maior complexidade, reforçar a relação com os clientes e conquistar uma posição de maior valor nas cadeias internacionais. Muitas PME industriais não dispõem de equipas dedicadas à preparação de candidaturas ou à gestão de projetos financiados. Que apoio pode o IAPMEI prestar nesta fase e que recomendações deixaria aos empresários para anteciparem necessidades, prepararem projetos consistentes e aproveitarem melhor os instrumentos disponíveis? Podem começar pela nossa Rede de Centros de Atendimento Empresarial, que tem presença descentralizada no país. Essa proximidade é uma característica que valorizo muito: permite às empresas procurar informação e orientação sobre as suas necessidades e os instrumentos que podem fazer sentido. Não é preciso chegar com uma candidatura preparada. É útil chegar com uma ideia do investimento, do objetivo pretendido, da localização, do calendário e da forma como se pensa financiá-lo. Mesmo quando o projeto ainda está numa fase inicial, este enquadramento pode ajudar a identificar questões que precisam de ser trabalhadas. Se houver necessidade de apoio especializado, a empresa pode recorrer a competências externas. O essencial é que o empresário continue envolvido nas decisões e conheça os investimentos e as metas que constam da candidatura. Olhando para o horizonte de 2030, quais deverão ser as principais prioridades dos instrumentos de apoio à indústria portuguesa? Que áreas de investimento considera mais importantes para reforçar a autonomia tecnológica, a produtividade e a resiliência das empresas? E como poderão evoluir os critérios de apoio para acompanhar as transformações industriais e as prioridades europeias? Olhando para 2030, eu diria que vamos ter de evoluir para uma política de incentivos mais seletiva e mais orientada para resultados e para prioridades estratégicas. Mas seletividade não deve significar necessariamente apoiar apenas grandes projetos ou inovação radical. Significa ser mais exigente naquilo que esperamos obter em resultado do apoio público. Na minha perspetiva, devemos continuar a investir na produtividade, na capacitação das pessoas, na digitalização, na descarbonização e no acesso aos mercados. São dimensões que se reforçam mutuamente e que devem ser pensadas de forma articulada. A Europa está também a dar maior atenção à capacidade tecnológica, à segurança económica e à redução de dependências estratégicas. Vejo aí oportunidades para a indústria portuguesa desenvolver competências e ocupar novas posições nas cadeias de valor. A lógica dos avisos lançados no âmbito da Plataforma STEP é um bom exemplo dessa evolução. Já não se trata apenas de perguntar se um projeto é inovador. Perguntamos também se contribui para desenvolver ou fabricar tecnologias críticas, reforçar as respetivas cadeias de valor ou reduzir dependências estratégicas europeias. Isto significa que áreas como as tecnologias digitais e deep tech, tecnologias limpas e eficientes na utilização dos recursos e biotecnologias, bem como as respetivas cadeias de valor, tenderão a assumir uma importância crescente. Gostaria que os instrumentos evoluíssem com uma orientação cada vez mais clara para a transformação que permitem alcançar. Isso implica olhar para a situação de partida da empresa, para os resultados do investimento e para o contributo específico do apoio público. Essa orientação deve, contudo, reconhecer diferentes percursos empresariais. Há projetos de grande dimensão, mas há também investimentos mais pequenos que podem representar uma mudança decisiva para uma PME. Defendo também uma melhor articulação entre incentivos, financiamento, garantias, I&D, formação e internacionalização. Para a empresa, estas necessidades fazem parte do mesmo percurso de crescimento. As respostas públicas devem procurar acompanhá-lo com essa visão de conjunto. Que mensagem final gostaria de deixar aos nossos leitores? Gostaria de deixar uma mensagem de confiança. Há competências na indústria portuguesa, há empresas a investir e existem instrumentos de apoio que podem ajudar a concretizar novos projetos. Os apoios públicos existem para acompanhar a ambição empresarial, e as empresas devem continuar a recorrer a eles para inovar, modernizar e crescer. n
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