BF21 - iAlimentar

O IMPACTO DA IA E AUTOMAÇÃO NA PRODUÇÃO ALIMENTAR | OPINIÃO 62 Tecnologia sem cultura não elimina o risco Ângela Leal, CEO & Founder da SARA HACCP A inteligência artificial e a automação estão a transformar a produção alimentar, fornecendo mais dados, mais rapidez e maior capacidade de controlo. Mas há uma verdade que não deve ser ignorada: a existência de normas, HACCP, certificações e tecnologia não elimina nem reduz o risco se os comportamentos, a liderança e a cultura operacional falharem. A segurança alimentar continua a depender de decisões tomadas todos os dias, especialmente quando existe pressão. MAIS TECNOLOGIA, MAS NÃO NECESSARIAMENTE MENOS RISCO A produção alimentar vive hoje uma evolução acelerada. Sensores, sistemas de visão artificial, robótica, plataformas digitais, inteligência artificial e modelos preditivos começam a fazer parte da realidade de muitas empresas. Estas ferramentas permitem monitorizar processos, analisar grandes volumes de dados, antecipar falhas, melhorar a rastreabilidade e reduzir desperdícios. À primeira vista, poderíamos pensar que quanto mais tecnologia existe, menor será o risco. Mas a realidade é mais complexa. A história da segurança alimentar mostra-nos que os sistemas são indispensáveis, mas não são suficientes. O HACCP (análise de perigos e pontos críticos de controlo), as boas práticas de higiene, os referenciais de certificação e os requisitos legais criam uma estrutura essencial. No entanto, essa estrutura só funciona quando é aplicada no terreno, por pessoas que compreendem o risco, cumprem procedimentos e tomam decisões coerentes. A tecnologia pode reforçar esta estrutura. Mas não a substitui. A IA PODE DETETAR DESVIOS, MAS NÃO DECIDE A CULTURA A inteligência artificial tem um enorme potencial na produção alimentar. Pode identificar padrões, cruzar dados, emitir alertas e apoiar decisões. Pode ajudar a prever avarias, sinalizar desvios de temperatura, acompanhar tendências de não conformidades, analisar reclamações, controlar consumos e melhorar a gestão de fornecedores. Na segurança alimentar, isto representa uma oportunidade clara: passar de uma lógica reativa para uma lógica mais preventiva. Mas há uma pergunta que continua a ser decisiva: o que acontece depois do alerta? Se um sistema identifica um desvio de temperatura, alguém tem de agir. Se uma plataforma sinaliza uma falha de registo, alguém tem de o corrigir. Se os dados mostram uma tendência de incumprimento, alguém tem de investigar a causa. Se uma auditoria revela comportamentos inseguros, alguém tem de liderar a mudança. A IA pode tornar o risco mais visível. Mas não garante, por si só, que a organização tenha maturidade para o enfrentar. AUTOMAÇÃO NÃO ELIMINA O FATOR HUMANO Um dos maiores equívocos sobre a automação é pensar que ela retira o fator humano da equação. Na prática, acontece o contrário: a automação

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