PROGRAMA DE SELEÇÃO MRV Informação atualizada, sempre disponível. Leia o QR CODE com a câmara do telemóvel e descarregue a aplicação. PORTO: Rua da Urtigueira N26 - 4410-304 Canelas VNG Tel.: +351 229 982 990 loja.norte@haiceland.com LISBOA: EN249, Estrada Casal do Canas, Lote 4, Alfragide 2724-523 Amadora Tel.: +351 214 253 846 loja@haiceland.com SEIXAL: Rua Rodrigo Sarmento de Beires, N57, 2840-068 Paio Pires Tel.: +351 214 253 846 loja@haiceland.com ALMANCIL: Sítio do Troto, N385, Loja A, S. João da Venda, 8135-026 Almancil Tel.: +351 289 816 415 loja.faro@haiceland.com PORTIMÃO: Rua do Oceano Atlântico 17, 8500-823 Portimão Tel.: +351 289 816 415 loja.faro@haiceland.com Grandes projetos merecem grandes soluções CHILLERS MODULARES ARREFECIMENTO AQUECIMENTO AF Capa_Chillers Modulares.pdf 1 10/07/2026 11:44:41 2026/3 21 Preço:11 € | Periodicidade: Trimestral | Julho 2026
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4 Edição, Redação e Propriedade INDUGLOBAL, UNIPESSOAL, LDA. Defensores de Chaves, 15 3º F 1000-109 Lisboa (Portugal) Telefone +351 215 935 154 E-mail: geral@interempresas.net NIF PT503623768 Gerente Aleix Torné Detentora do capital da empresa Grupo Interempresas Media, S.L. (100%) Diretora Joana Peres Equipa Editorial Joana Peres, Gabriela Costa, Nina Jareño Marketing e Publicidade Frederico Mascarenhas redacao_ialimentar@interempresas.net www.ialimentar.pt Preço de cada exemplar 11 € (IVA incl.) Assinatura anual 44 € (IVA incl.) Registo da Editora 219962 Registo na ERC 127558 Depósito Legal 480593/21 Distribuição total +5.200 envios. Distribuição digital a +4.500 profissionais. Tiragem +700 cópias em papel Edição Número 21 –Julho de 2026 Estatuto Editorial disponível em https://www.ialimentar.pt/EstatutoEditorial.asp Impressão e acabamento Lidergraf Rua do Galhano, n.º 15 4480-089 Vila do Conde, Portugal www.lidergraf.eu Media Partners: Os trabalhos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. É proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos editoriais desta revista sem a prévia autorização do editor. A redação da iALIMENTAR adotou as regras do Novo Acordo Ortográfico. SUMÁRIO ATUALIDADE 6 EDITORIAL 7 Portugal lidera índice global de resiliência dos sistemas alimentares 11 Entrevista com Carlota Burnay, secretária-geral da APCV - Cervejeiros de Portugal 12 Do alambique à economia circular: uma família que destila inovação e sustentabilidade 18 Redução dos custos operacionais garantindo elevados padrões de higiene na indústria alimentar e bebidas 22 Cervejeira de Vialonga investe 33,5 milhões de euros em sistema para reduzir emissões de carbono 26 Suntory Beverage & Food Iberia investe 98 milhões de euros na fábrica de Toledo em dez anos 30 Indústria europeia das bebidas procura respostas para um mercado em transformação 32 A seleção do vedante como operação enológica 36 A diferentes velocidades: reduzir o compliance gap na legislação alimentar 40 FRIGA-BOHN reforça soluções de refrigeração sustentável para a cadeia agroalimentar 42 Segurança alimentar na conservação de alimentos: o que falha para além da tecnologia 45 A maioria dos consumidores nunca pensa na embalagem nem na logística de um produto. E isso é um sinal de que tudo correu bem. 48 Fruit Attraction 2026 prevê reunir mais de 121.000 profissionais de cerca de 150 países 50 Produzir com inteligência: o novo papel da IA na indústria alimentar 52 Alimentaria FoodTech 2026 aproxima a inovação industrial de um setor alimentar que ultrapassa os 24 mil milhões de euros 58 Tecnologia sem cultura não elimina o risco 62 O restaurante que (quase) se gere sozinho: IA e automação ao serviço de quem decide 65
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6 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.IALIMENTAR.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER bioMérieux apresenta kit de deteção de Salmonella para apoiar a análise da causa raiz na indústria alimentar A bioMérieux anunciou o lançamento do GENE-UP TYPER SLM, uma nova solução de PCR em tempo real destinada a apoiar a análise rápida da causa raiz através da discriminação de Salmonella em ambientes da indústria alimentar. Todos os anos, são registados em todo o mundo entre 200 milhões e mil milhões de casos de infeções por Salmonella, incluindo 93 milhões de casos de gastroenterite e 155 mil mortes. Cerca de 85% destes casos estão associados ao consumo de alimentos contaminados*. Os episódios de contaminação alimentar representam um risco para a saúde pública e podem originar recolhas de produtos, custos operacionais elevados e impactos reputacionais para as empresas. Neste contexto, as ferramentas de análise da causa raiz permitem deteção de Listeria monocytogenes. O sistema utiliza tecnologia de PCR em tempo real para a caracterização rápida de estirpes microbianas e foi concebido para utilização no sistema GENE-UP da bioMérieux. Após a deteção de agentes patogénicos durante os testes de rotina e o respetivo isolamento, o ADN é extraído e amplificado através do ensaio correspondente. O resultado obtido é posteriormente carregado na plataforma web AUGMENTED-DX da bioMérieux. identificar falhas nos processos e implementar medidas corretivas destinadas a prevenir futuras contaminações. O novo ensaio GENE-UP TYPER SLM foi desenvolvido especificamente para Salmonella enterica subespécie enterica, a variante mais frequentemente isolada em casos de salmonelose humana e em incidentes relacionados com alimentos. A solução integra a plataforma GENE-UP® TYPER, lançada no início de 2025 com um teste dedicado à Sea-Film desenvolve bioembalagens que se degradam em água do mar A Science 351 está a desenvolver, no âmbito do projeto Sea-Film, uma nova geração de embalagens alimentares biodegradáveis concebidas para se degradarem em contacto com a água do mar. A iniciativa pretende responder aos desafios ambientais associados à acumulação de resíduos plásticos nos oceanos, através da utilização de materiais de origem renovável e da valorização de resíduos agroflorestais. O projeto tem como objetivo criar filmes poliméricos flexíveis destinados, numa primeira fase, ao acondicionamento de alimentos secos, como bolachas e snacks. A solução recorre à etilcelulose, um polímero de origem natural derivado da celulose, complementado com outras moléculas de base natural para reforçar as propriedades mecânicas e de barreira necessárias à conservação dos alimentos. De acordo com informação divulgada pela Science 351 e pelo Compete 2030, a tecnologia foi desenvolvida para combinar desempenho industrial com sustentabilidade. Para além da resistência à humidade, aos óleos e aos gases e da estabilidade térmica, as embalagens incorporam componentes naturais com propriedades antioxidantes, contribuindo para prolongar o período de conservação dos alimentos. Foto: Science 351.
EDITORIAL Num contexto internacional marcado pela instabilidade geopolítica, pelas alterações climáticas e pela crescente pressão sobre as cadeias de abastecimento, a capacidade de adaptação tornou-se um dos principais fatores de competitividade da indústria alimentar. É, por isso, particularmente relevante que Portugal tenha sido recentemente classificado como o país com o sistema alimentar mais resiliente entre 60 economias avaliadas pelo Resilient Food Systems Index, desenvolvido pela Economist Impact. O estudo destaca o desempenho nacional em áreas como a qualidade e segurança alimentar, a disponibilidade de alimentos e a capacidade de resposta a riscos, confirmando a solidez de um setor que continua a evoluir. Este reconhecimento não significa que os desafios estejam ultrapassados. Pelo contrário, reforça a responsabilidade de continuar a investir em inovação, eficiência e sustentabilidade para responder a um mercado em permanente transformação. É precisamente esse percurso que procuramos retratar nesta edição da iAlimentar. Em destaque estão as tecnologias de conservação, fundamentais para garantir a segurança alimentar, reduzir perdas e aumentar a eficiência ao longo da cadeia de frio. Abordamos igualmente a sustentabilidade no setor das bebidas, com especial enfoque nas indústrias do vinho e da cerveja, onde os investimentos em descarbonização, gestão eficiente da água, economia circular e valorização de recursos estão a redefinir os modelos de produção. Outro dos grandes temas desta edição é o impacto da inteligência artificial e da automação na produção alimentar. Embora a adoção destas tecnologias apresente diferentes níveis de maturidade entre empresas, é evidente que ferramentas como a análise avançada de dados, a monitorização em tempo real e a automação industrial estão a transformar a forma como se produz, controla a qualidade e gere a eficiência operacional. Os temas aqui reunidos demonstram que a competitividade da indústria alimentar dependerá, cada vez mais, da capacidade de integrar conhecimento, tecnologia e sustentabilidade numa estratégia comum. Mais do que acompanhar tendências, importa criar condições para que as empresas continuem a inovar, reforçando a resiliência de toda a cadeia de valor. Os temas que reunimos nas próximas páginas refletem uma indústria em mudança, onde inovação, conhecimento e capacidade de adaptação caminham lado a lado. Esperamos que esta edição constitua um espaço de informação e reflexão para todos os profissionais do setor. Resiliência, inovação e confiança na indústria alimentar Olivomundo automatiza lagar com apoio do Compete 2030 A Olivomundo vai reforçar a capacidade do seu lagar através de um projeto cofinanciado pelo Compete 2030, que combina investimento em tecnologia, automatização e sustentabilidade para responder à evolução da produção nacional de azeite. A Olivomundo está a investir na ampliação e modernização do seu lagar, através de um projeto cofinanciado pelo Compete 2030, com o objetivo de aumentar a capacidade de processamento de azeitona, reforçar a eficiência da operação e responder ao crescimento da produção nacional e à procura dos mercados internacionais. O investimento contempla a expansão das instalações, a instalação de novas linhas de extração de azeite, o aumento da capacidade de armazenamento e a reorganização da unidade industrial. A empresa pretende, desta forma, adaptar a operação às diferentes fases da campanha oleícola, reforçando a capacidade de resposta da produção. A modernização passa também pela automatização integral da fábrica. Com recurso a tecnologias de Indústria 4.0, o processo produtivo será monitorizado e controlado remotamente, permitindo melhorar a eficiência operacional e a rastreabilidade. A sustentabilidade constitui outro dos eixos do projeto. Estão previstas a instalação de caldeiras a biomassa alimentadas com caroço de azeitona, a implementação de um sistema automatizado para o transporte do bagaço e a instalação de um sistema solar fotovoltaico para produção de energia renovável. O projeto inclui ainda a valorização do bagaço através da produção de bagaço semi-seco destinado ao fabrico de adubos orgânicos, numa abordagem assente nos princípios da economia circular. Foto: Compete 2030.
8 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.IALIMENTAR.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Alternativa vegetal ao iogurte vence Ecotrophelia Portugal O projeto Gubico, um preparado fermentado à base de grão-de-bico biológico e maçã de Alcobaça concebido como alternativa ao iogurte, venceu a edição de 2026 do Prémio Ecotrophelia Portugal. Desenvolvido por quatro estudantes do Instituto Superior de Agronomia, o projeto arrecadou o primeiro prémio, no valor de três mil euros, e vai representar Portugal na competição Ecotrophelia Europe, que decorre durante a feira SIAL, nos dias 18 e 19 de outubro, em Paris. Na sua 10.ª edição, o concurso, organizado pela PortugalFoods, contou com 21 projetos desenvolvidos por 80 estudantes de instituições de ensino superior de diferentes regiões do país. Entre os oito finalistas, o júri distinguiu o Gubico pelo seu perfil nutricional e potencial empreendedor. O Prémio Ecotrophelia Portugal desafia, há dez anos, estudantes universitários de todo o país a desenvolver produtos alimentares inovadores que contribuam para a redução do desperdício alimentar, promovam a economia circular e se destaquem pela eco-inovação e sustentabilidade. Além do prémio principal, o projeto recebeu a distinção Nutri Up, atribuída pela Associação Portuguesa de Nutrição (APN), que inclui consultoria especializada e acesso gratuito ao Congresso de Nutrição de 2026. Foi ainda distinguido com os prémios Rise Up, Strategy Up, Design Up e Communication Up, atribuídos, respetivamente, pela Uptec - Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto, Market Access, Tekzenit e Invicta Toastmasters, que vão proporcionar apoio nas áreas do empreendedorismo, plano de negócios, design e comunicação. Créditos: Ecotrophelia Portugal / TóMané STEF reforça proximidade à indústria agroalimentar com nova plataforma em Viseu A STEF Portugal, empresa de transporte e logística de produtos alimentares sob temperatura controlada, continua a reforçar a sua operação na região Centro com a entrada em funcionamento de uma nova plataforma regional em Viseu, resultado de um investimento de cerca de 900 mil euros. Com uma área de 700 m2, a nova infraestrutura dispõe de três portas de cais e está equipada com um cais de fresco de 414 m2 e uma câmara de congelados. A localização estratégica da plataforma permitirá à STEF estar mais próxima dos principais produtores da indústria agroalimentar da região, garantindo uma resposta mais ágil e eficiente nas recolhas diárias de mercadorias e otimizando a operação de distribuição. “A abertura de uma nova plataforma em Viseu permite-nos expandir a nossa rede de transporte e reforçar a proximidade com a indústria agroalimentar, um setor com forte presença nesta região. Com este investimento vamos otimizar a distribuição numa área geográfica onde servimos diversos canais, desde o retalho ao canal Horeca”, afirma Mickael Tomás, diretor-geral da STEF Portugal. “As regiões do interior apresentam características muito próprias, sendo tradicionalmente mais expedidoras do que consumidoras. No entanto, durante o verão e nas épocas festivas, o regresso dos emigrantes traduz-se num aumento da procura e esta nova plataforma garante-nos uma maior capacidade de resposta”, acrescenta.
9 ATUALIDADE Continente é Host Sponsor da primeira edição do Portugal Food Safety 2026 O Continente foi confirmado como Host Sponsor da 1.ª edição do Portugal Food Safety 2026, reforçando a relevância do congresso nacional dedicado à segurança alimentar. A entrada de um dos principais retalhistas do país nesta edição inaugural sublinha o interesse que o evento já desperta no setor e contribui para o seu posicionamento como ponto de encontro para profissionais, decisores e especialistas de toda a cadeia agroalimentar. Enquanto Host Sponsor, o Continente associa-se a um evento concebido para promover o debate e a partilha em torno dos principais desafios atuais da segurança alimentar, num contexto marcado por exigências crescentes ao nível da regulação, da rastreabilidade, da transparência e da confiança do consumidor. Após a confirmação da participação da Brand Reputation through Compliance Global Standards (BRCGS) e da International Featured Standards (IFS), e com novos patrocinadores a serem anunciados, o Portugal Food Safety continua a consolidar o seu posicionamento como um encontro de referência no contexto nacional. TRANSFORME A SUA LINHA DE FRUTAS E VERDURAS COM A G. MONDINI Neural® deteta defeitos visuais e frutas não conformes em tempo real, garantindo que cada embalagem esteja impecável antes de sair da linha. • Menos devoluções • Maior satisfação do cliente • Imagem de marca mais forte • Redução de desperdício • Redução de mão de obra • Calibração da fruta já embalada Pode identificar: mofo, frutas imaturas, rachaduras ou danos superficiais, magoados ou áreas afundadas, arranhões ou marcas de atrito, irregularidades de cor, resíduos vegetais ou florais. O sistema analisa cada bandeja e a categoriza conforme o estado da fruta: Contacte-nos através de marketing@grupalia4punto0.com para mais informações | ✆ +351 913 131 567 Com defeitos e imperfeições, não apta para embalagem Ainda não atende aos padrões Madura e apta para o venda a retalho MALA 50.0% INMADURA 77.1% BUENA 74.7%
10 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.IALIMENTAR.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Exportações da indústria alimentar e das bebidas crescem 3,3% e confirmam competitividade do setor As exportações da indústria alimentar e das bebidas portuguesa totalizaram 3.307 milhões de euros nos primeiros cinco meses de 2026, um crescimento de 3,33% face ao período homólogo do ano anterior, segundo os mais recentes dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). O crescimento do setor foi impulsionado sobretudo pelos mercados extracomunitários, onde as exportações aumentaram 5,92% entre janeiro e maio. Entre os destinos que mais contribuíram para este desempenho destacam-se Cabo Verde (+19,64%), Brasil (+15,93%), Angola (+11,62%) e Japão (+10,68%). Em sentido inverso, os Estados Unidos da América registaram uma quebra de 9,64% nas importações de produtos alimentares e bebidas portugueses, refletindo um contexto internacional mais exigente para as empresas exportadoras. No mercado comunitário, as exportações atingiram 2.260 milhões de euros, o que representa um crescimento de 2,17% face aos primeiros cinco meses de 2025. Entre os mercados da União Europeia, Itália (+20,64%) e os Países Baixos (+19,94%) destacaram-se pelo maior dinamismo. Já a Polónia (-10,66%) e a Bélgica (-5,10%) registaram uma redução das importações de produtos portugueses. Para o presidente da Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA), Jorge Tomás Henriques, estes resultados demonstram a capacidade das empresas do setor para competir nos mercados internacionais, mesmo num contexto económico e geopolítico particularmente desafiante. Recolha seletiva de embalagens cresce menos de 1% e compromete metas de reciclagem A recolha seletiva de resíduos de embalagens para reciclagem em Portugal aumentou apenas 0,9% no primeiro semestre de 2026, totalizando 233 065 toneladas, segundo os dados do Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens (SIGRE). A evolução é considerada insuficiente pela Sociedade Ponto Verde (SPV) e pela Novo Verde, que alertam para a necessidade de reforçar a eficiência da recolha seletiva e da triagem para que o país consiga cumprir as metas nacionais e europeias de reciclagem. Os dados revelam desempenhos distintos consoante o material. O papel/cartão registou um crescimento de cerca de 5%, enquanto o alumínio aumentou 7%. A madeira também apresentou uma evolução positiva, com um acréscimo de 13,5%. Já o vidro, apesar de continuar a ser o material com maior volume recolhido, registou um crescimento de apenas 1%, um resultado que ambas as entidades consideram preocupante por colocar em causa o cumprimento das respetivas metas de reciclagem. As Embalagens de Cartão para Alimentos Líquidos (ECAL) mantiveram igualmente uma evolução negativa, permanecendo abaixo dos valores do período homólogo.
11 ESTUDO PORTUGAL LIDERA ÍNDICE INTERNACIONAL DE RESILIÊNCIA DOS SISTEMAS ALIMENTARES Portugal ocupa o primeiro lugar do Resilient Food Systems Index (RFSI), desenvolvido pela Economist Impact, unidade de investigação do grupo The Economist, que avalia a capacidade dos sistemas alimentares para responder a desafios como as alterações climáticas, as crises económicas, as tensões comerciais e os riscos biológicos. O índice, apoiado pela Cargill, analisou 60 países através de 71 indicadores. Portugal alcançou 76,83 pontos, superando França (76,75), Reino Unido (76,34) e Estados Unidos (75,30), destacando-se como o sistema alimentar mais resiliente entre os países avaliados. Este desempenho reflete a robustez do País em dimensões como a acessibilidade económica aos alimentos, a disponibilidade alimentar, a qualidade e segurança alimentar e a capacidade de resposta a riscos climáticos. Ainda assim, o relatório alerta que todos os países enfrentam desafios crescentes para garantir o abastecimento de alimentos seguros, nutritivos e acessíveis perante fenómenos extremos e perturbações nas cadeias de abastecimento. Apesar da liderança portuguesa, a Economist Impact identifica a resposta ao risco climático como a maior fragilidade dos sistemas alimentares a nível global. O estudo defende um maior investimento em infraestruturas logísticas, cadeias de frio, armazenamento, conectividade rural e digitalização agrícola, bem como uma integração mais forte da agricultura nas políticas climáticas. Segundo o relatório, reforçar estes fatores será determinante para aumentar a produtividade, reduzir perdas alimentares e assegurar a resiliência dos sistemas alimentares perante futuros choques. n ©Economist Impact 2026 Resilient Food Systems Index: Global Report 30 RFSI 2026 results APPENDIX 1 Table 2. 2026 RFSI overall rankings table Weighted total of all pillar scores (0-100 where 100 = strongest performance) Rank / 60 Country Score / 100 1 Portugal 76.83 2 France 76.75 3 UK 76.34 4 US 75.30 5 Japan 74.39 6 Netherlands 73.51 7 Germany 73.50 8 Denmark 73.19 9 Singapore 73.00 10 Malaysia 72.98 11 Poland 72.33 12 Australia 71.92 13 Belgium 71.74 14 Spain 71.52 15 Italy 71.39 16 South Korea 70.78 17 China 70.13 18 Canada 70.08 19 Qatar 69.89 20 Chile 69.76 Rank / 60 Country Score / 100 21 Brazil 69.71 22 Czech Republic 69.52 23 Costa Rica 69.37 24 Saudi Arabia 68.40 25 Argentina 68.31 26 United Arab Emirates 68.16 27 Greece 68.08 28 Israel 67.02 29 Indonesia 66.52 30 Peru 65.12 31 Vietnam 64.72 32 Algeria 64.66 33 Bangladesh 64.06 34 Philippines 63.82 35 Mexico 63.79 36 Hungary 63.17 37 Jordan 62.81 38 South Africa 62.65 39 Egypt 62.18 40 India 62.12 Rank /60 Country Score / 100 41 Colombia 60.89 42 Guatemala 59.67 43 Paraguay 58.73 44 Thailand 57.66 45 Sri Lanka 56.91 46 Ghana 56.89 47 Turkey 56.68 48 Honduras 56.42 49 Pakistan 56.04 50 Tanzania 53.92 51 Nicaragua 53.45 52 Romania 52.44 53 Lebanon 51.65 54 Rwanda 50.69 55 Namibia 50.43 56 Ethiopia 49.86 57 Nigeria 49.64 58 Uganda 48.25 59 Kenya 48.03 60 Congo (Democratic Republic) 34.86 0 20 30 40 50 60 70 80 100 Score Consulte o estudo aqui: https://insights.economistenterprise.com/energy-environment/resilient-food-systems-index#start
ENTREVISTA 12 CARLOTA BURNAY SECRETÁRIA-GERAL DA APCV – CERVEJEIROS DE PORTUGAL “A cerveja já é estratégica para a economia portuguesa. Está na hora de ser reconhecida como tal” Joana Peres A sustentabilidade, a circularidade e a previsibilidade regulatória estão entre as prioridades da nova secretáriageral da APCV – Cervejeiros de Portugal. Em entrevista à iAlimentar, Carlota Burnay defende uma abordagem integrada aos desafios ambientais, sublinhando a necessidade de conciliar investimento, inovação e competitividade num setor que representa cerca de 2,5% do PIB nacional e sustenta mais de 170 mil postos de trabalho. Assumiu funções, no início deste ano, num momento em que a sustentabilidade se tornou um fator de competitividade para a indústria. Quais serão as principais prioridades da APCV para apoiar as empresas cervejeiras nesta transição? A sustentabilidade faz parte do ADN do setor cervejeiro há várias décadas e constitui um eixo estruturante da gestão das empresas, abrangendo as dimensões ambiental, social e de governação (ESG). A aposta na economia circular sempre esteve presente, refletindo-se na utilização eficiente dos recursos, na valorização e reutilização de materiais e na redução do impacto ambiental. Mas a sustentabilidade vai além da dimensão ambiental: traduz-se também no compromisso com a economia nacional, através da valorização de fornecedores portugueses, da criação de emprego qualificado e do contributo para o desenvolvimento das comunidades locais. A adoção das melhores práticas nestas áreas contribui para preparar as empresas para o futuro, tornando-as mais eficientes, mais resilientes e mais competitivas. O seu impacto vai muito além da dimensão ambiental: reflete-
ENTREVISTA 13 -se também na eficiência operacional, na capacidade de inovação e na disponibilização e promoção de alternativas no portefólio que respondem às novas expectativas dos consumidores. Neste contexto, a APCV – Cervejeiros de Portugal está a atuar em quatro frentes principais. A primeira passa por reforçar a partilha de conhecimento e boas práticas entre os associados. Somos uma plataforma de convergência para o setor. Não substituímos as estratégias individuais das empresas, mas ajudamos a transformar desafios comuns em respostas coordenadas, tecnicamente sólidas e alinhadas com os compromissos de sustentabilidade. A segunda consiste em reforçar a representação do setor junto das instituições europeias, através da nossa participação ativa na The Brewers of Europe. Num momento em que a União Europeia está a definir algumas das mais importantes políticas ambientais e económicas para a próxima década, é fundamental garantir que as linhas mestras dessas políticas são proporcionais ao nível do impacto dos investimentos estruturais a realizar pela indústria, operacionalmente exequíveis para as empresas e para as diferentes realidades dos Estados-Membros. A terceira prioridade passa por continuar a afirmar o setor cervejeiro como um pilar da economia portuguesa. Falamos de uma atividade que sustenta mais de 170 mil postos de trabalho, gera cerca de 2,5% do PIB nacional e tem um impacto muito relevante na agricultura, na indústria, na logística, na restauração, na hotelaria e no turismo. Para que o setor possa continuar a investir em inovação e sustentabilidade, é igualmente importante assegurar condições de competitividade e previsibilidade, incluindo um enquadramento fiscal equilibrado e estável. A quarta prioridade passa por reforçar a promoção de um consumo responsável, enquanto dimensão essencial da responsabilidade social do setor cervejeiro. Este compromisso traduz-se na defesa de práticas de comunicação responsáveis, na autorregulação do próprio setor, na sensibilização dos consumidores e no diálogo com entidades públicas e parceiros da sociedade civil. Neste âmbito, a Cervejeiros de Portugal integra igualmente o Fórum Nacional Álcool e Saúde (FNAS), contribuindo ativamente para o acompanhamento destas matérias e para a construção de políticas e iniciativas que promovam um consumo responsável. Neste contexto, o crescimento das opções sem álcool assume particular relevância. Muito antes de esta tendência ganhar maior visibilidade pública, a indústria cervejeira já investia no desenvolvimento desta categoria, oferecendo aos consumidores alternativas que permitem conciliar o prazer e a cultura cervejeira com escolhas moderadas e responsáveis. Note-se que há 30 anos lançávamos as primeiras soluções sem álcool. Mesmo que a experiência não fosse perfeita, fruto da inovação disponível, houve esse entendimento e compromisso com a moderação. Mas hoje, a cerveja sem álcool é uma das áreas mais dinâmicas do setor, tendo registado, em 2025, um crescimento próximo dos 12%, demonstrando que inovação, liberdade de escolha e responsabilidade social podem caminhar lado a lado. Queremos reforçar o papel da APCV enquanto plataforma de diálogo entre indústria, decisores políticos, academia e restantes parceiros da cadeia de valor. Os desafios da sustentabilidade não se resolvem isoladamente. Exigem cooperação, inovação e uma visão integrada que tenha em conta simultaneamente os objetivos ambientais, económicos e sociais. O desafio agora é garantir que esta trajetória nas diferentes matérias de sustentabilidade continua a evoluir, sem comprometer a competitividade das empresas nem a capacidade de investimento necessária para cumprir as metas ambientais que todos partilhamos. O setor cervejeiro tem vindo a investir na redução do consumo de água, energia e emissões. Quais considera serem os progressos mais relevantes alcançados pela indústria nos últimos anos? Os progressos mais relevantes alcançados pelo setor cervejeiro nos últimos anos resultam precisamente da capacidade de integrar a sustentabilidade em toda a cadeia de valor. Um estudo recente realizado pela Nova SBE para a APCV demonstra e assinala que os produtores nacionais de cerveja apresentam um compromisso transversal com a sustentabilidade, que vai muito além do cumprimento das obrigações regulatórias. Falamos de uma abordagem que abrange a gestão da água, a eficiência energética, a incorporação de materiais reciclados nas embalagens, o uso de embalagens retornáveis, a valorização de subprodutos e a colaboração com fornecedores e parceiros logísticos. “Acreditamos que Portugal reúne condições para reforçar a produção de cevada e outras matérias-primas estratégicas, criando valor para os agricultores, para a indústria e para o país”
ENTREVISTA 14 Os indicadores são reveladores dessa evolução. Em média, cerca de 40% do volume comercializado pelo setor corresponde a embalagens retornáveis/reutilizáveis – e note-se que em 2024, correspondeu a 50% -, aproximadamente 67% do material incorporado nas embalagens é proveniente de material reciclado e 22,20% da energia consumida tem origem em fontes renováveis, incluindo autoprodução. O verdadeiro progresso e maior desafio está na capacidade de tornar a sustentabilidade uma responsabilidade partilhada por toda a cadeia de valor: da agricultura, à logística, à distribuição, à restauração, à hotelaria e ao turismo. A gestão eficiente da água é uma das maiores preocupações da indústria das bebidas. Que metas considera realistas para o setor nos próximos anos e que tecnologias poderão acelerar esse processo? A água ocupa um lugar absolutamente central no setor cervejeiro. Não estamos apenas a falar de um recurso da produção, estamos a falar do principal ingrediente da cerveja. Cerca de 93% de uma cerveja é água. Por isso, proteger este recurso é simultaneamente uma responsabilidade ambiental e uma necessidade estratégica para o futuro do setor. Mais do que definir uma meta única para todas as empresas, acredito que o caminho passa por uma melhoria contínua da eficiência hídrica, pela redução de perdas, pela reutilização de água sempre que tecnicamente possível e pela proteção dos recursos hídricos que sustentam a atividade cervejeira. O desafio não é simplesmente consumir menos água: é utilizá-la de forma cada vez mais eficiente ao longo de todo o ciclo produtivo, garantindo simultaneamente qualidade, segurança alimentar e circularidade. As alterações climáticas colocam novos desafios ao abastecimento de matérias-primas agrícolas. Como poderá a indústria cervejeira colaborar com os produtores para reforçar a resiliência da cadeia de valor? O setor cervejeiro português parte de uma posição particularmente interessante. Ao contrário do que acontece noutros mercados europeus, Portugal caracteriza-se por um forte consumo de cerveja produzida localmente. Mesmo muitas marcas internacionais presentes no mercado nacional são produzidas em território português. E também, todo o setor, desde as grandes como as PMEs, somos grandes compradores da matéria-prima nacional, tendo uma relação muito próxima com os seus fornecedores e com a economia nacional, desde a agricultura à indústria vidreira, passando pela logística e pela distribuição. Naturalmente, existem desafios. No caso da cevada, por exemplo, a produção nacional representa atualmente apenas uma parte das necessidades da indústria (cerca de 20%), o que obriga à importação de matéria-prima, sobretudo de mercados próximos como Espanha e França. Ainda assim, procuramos privilegiar cadeias de abastecimento de proximidade, tanto por razões de segurança de abastecimento como pela redução da pegada associada ao transporte. É precisamente por isso que vemos um enorme potencial no reforço da produção nacional. O setor cervejeiro tem vindo a colaborar ativamente com diferentes entidades da fileira agrícola e participa em iniciativas como a plataforma +CEREAIS, que procura aumentar a produção nacional de cereais e reduzir a dependência externa. Acreditamos que Portugal reúne condições para reforçar a produção de cevada e outras matérias-primas estratégicas, criando valor para os agricultores, para a indústria e para o país.
ENTREVISTA 15 A cerveja começa muito antes da produção industrial: começa no campo. Por isso, a resiliência da cadeia de valor passa por aproximar a investigação científica, a produção agrícola e a indústria cervejeira, criando condições para reforçar a produção nacional de matérias-primas e reduzir dependências externas sempre que possível. Um bom exemplo desta cooperação é o Comité de Cevada e Malte, uma estrutura setorial que junta os Cervejeiros de Portugal e o INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, através do Polo de Elvas. O papel desta cooperação é particularmente relevante na definição e atualização da Lista de Variedades Recomendadas de cevada dística para malte, publicada de dois em dois anos. Ao integrar estas listas e atualizações em plataformas de inovação e conhecimento do setor cerealífero, o Comité contribui para uma fileira mais informada, competitiva e preparada para responder aos desafios das alterações climáticas. A economia circular está a ganhar expressão em várias áreas da indústria alimentar. Que oportunidades identifica para a valorização de subprodutos da produção cervejeira e para a redução do desperdício ao longo da cadeia? O setor cervejeiro tem um histórico muito sólido de circularidade, seja na disponibilização de embalagens retornáveis, como barris e garrafas de vidro, seja na valorização de subprodutos. Existem oportunidades relevantes na valorização de subprodutos do processo produtivo cervejeiro, que podem encontrar aplicações na alimentação animal, na agricultura, na produção de energia ou noutras utilizações de valor acrescentado. O canal HORECA é particularmente relevante para o setor cervejeiro em Portugal, não apenas pelo peso que representa no consumo de cerveja, mas também pela relevância para o uso de embalagens retornáveis como os barris e garrafas de vidro (grades). Aqui as empresas asseguram sistemas de retorno, dessas embalagens, às suas unidades fabris para higienização, enchimento e volta ao mercado. Completa-se assim um modelo de circularidade. Ao mesmo tempo, somos um setor profundamente ligado à indústria vidreira nacional, uma cadeia de valor estratégica para o país. O vidro possui uma característica única: pode ser reciclado infinitamente sem perda de qualidade, tornando-se um dos melhores exemplos de circularidade aplicada à indústria alimentar. Por outro lado, estamos a acompanhar e a fazer parte integrante da implementação do Sistema de Depósito e Reembolso (SDR), que permitirá reforçar a recolha e valorização de embalagens de bebidas. Embora as latas representem atualmente uma parcela relativamente reduzida do consumo de cerveja em Portugal, cerca de 11%, este é um formato que tem vindo a crescer significativamente nos últimos anos, ao nível dos 30%. O SDR poderá desempenhar um papel importante na melhoria das taxas de recolha e reciclagem destes materiais, contribuindo para fechar ainda mais o ciclo dos recursos. Mas existe uma ideia que considero particularmente importante: antes de pensar em reciclar, devemos pensar em reutilizar. A reutilização continua a ocupar o topo da hierarquia da circularidade e o setor cervejeiro tem uma experiência histórica muito relevante nesta matéria. O desafio dos próximos anos será combinar reutilização, reciclagem de elevada qualidade e inovação tecnológica para continuar a reduzir o desperdício e maximizar o valor dos recursos ao longo de toda a cadeia. As novas regras europeias para embalagens e resíduos exigirão mudanças significativas. Como avalia a preparação do setor para responder a estas exigências e quais serão os maiores desafios? O setor está preparado para participar ativamente nesta transformação, mas não devemos subestimar a sua complexidade. O PPWR representa uma das mais profundas alterações regulatórias das últimas décadas em matéria de embalagens. Embora muitos dos seus efeitos só sejam plenamente visíveis nos próximos anos, as decisões que irão determinar a sua implementação prática estão a ser tomadas agora. O principal desafio será garantir que os objetivos ambientais são acompanhados por critérios técnicos sólidos e por uma implementação harmonizada entre Estados-Membros. Caso contrário, corremos o risco de criar complexidade adicional sem necessariamente obter melhores resultados ambientais. Esta preocupação é particularmente relevante porque o regulamento prevê que a Comissão Europeia publique orientações interpretativas sobre determinadas matérias apenas até fevereiro de 2027. No entanto, as empresas europeias estão já hoje a tomar decisões críticas de investimento, adaptação de linhas de produção, reorganização logística e planeamento operacional. Sem orientações claras e atempadas, existe o risco de diferentes EstadosMembros adotarem interpretações divergentes perante situações semelhantes, criando insegurança jurídica e potenciais distorções no funcionamento do Mercado Único. No caso da cerveja, esta questão assume especial relevância em matérias relacionadas com a logística e distribuição. Determinadas soluções de agrupamento e estabilização
ENTREVISTA 16 de embalagens continuam a desempenhar um papel importante para garantir a segurança, a integridade e o manuseamento eficiente dos produtos ao longo da cadeia de abastecimento. O debate não está em saber se estas soluções devem evoluir no futuro, mas sim em garantir que existe clareza sobre as circunstâncias em que podem ser consideradas necessárias e compatíveis com os objetivos do regulamento. Outro desafio importante prende-se com a necessidade de flexibilidade na implementação das novas regras de rotulagem e informação ao consumidor, assegurando que estas se adaptam às limitações técnicas dos diferentes tipos de embalagem sem gerar custos desproporcionados para benefícios ambientais ou informativos marginais. É neste contexto que a APCV, a nível nacional, e a The Brewers of Europe, a nível europeu, têm procurado sensibilizar os decisores para a importância de uma aplicação clara, coerente e exequível do PPWR. Um exemplo concreto é o apelo que estamos a dirigir ao Governo português para que acompanhe o non-paper promovido pela Chéquia, já subscrito por vários Estados-Membros, que solicita clarificação sobre aspetos técnicos do regulamento, nomeadamente em matéria de embalagens agrupadas, soluções de estabilização e logística de distribuição. Importa assinalar que a questão não é contestar, mas sim assegurar que as empresas dispõem de orientações claras e atempadas para poderem tomar decisões de investimento, adaptar linhas de produção e reorganizar operações logísticas sem correrem o risco de enfrentar interpretações divergentes entre Estados-Membros. Defender a sustentabilidade não significa escolher entre ambição ambiental e competitividade. Significa garantir que as medidas adotadas produzem benefícios ambientais efetivos, proporcionais e assentes em evidência, permitindo simultaneamente que as empresas continuem a investir, inovar e criar valor para a economia europeia. Que áreas da cadeia de valor da cerveja — agricultura, produção industrial, embalagem, logística ou energia — deverão concentrar os maiores investimentos em sustentabilidade nos próximos cinco anos? Os investimentos em sustentabilidade serão distribuídos por toda a cadeia de valor. Veremos investimentos significativos em eficiência energética, energias renováveis, reutilização e reciclagem de embalagens, sistemas de rastreabilidade, digitalização industrial e otimização logística. Mas também acredito que assistiremos a um reforço dos investimentos em modelos de reutilização e sistemas mais eficientes de reciclagem. A circularidade não depende apenas da embalagem: depende da capacidade de a recolher, transportar, higienizar e colocar novamente em circulação de forma eficiente. A inovação tecnológica está a transformar a indústria alimentar. Que soluções ou tendências considera que terão maior impacto na eficiência e sustentabilidade do setor cervejeiro na próxima década? Várias tendências terão um impacto significativo. A digitalização, como o uso de códigos QR nas embalagens, será uma ferramenta valiosa para fornecer informação detalhada aos consumidores, em linha com o futuro Passaporte Digital de Produto. Na produção, a aposta em fontes de energia renováveis serão cruciais. Finalmente, a implementação de sistemas de recolha inteligentes, como o Sistema de Depósito e Reembolso, otimiza a logística da economia circular para embalagens de uso único. Se tivesse de apontar um objetivo ou indicador que gostaria de ver alcançado pelo setor cervejeiro português até ao final desta década, qual seria e por que razão o considera estratégico para a competitividade da indústria? Mais do que um indicador ambiental específico, gostaria que, até ao final desta década, o setor cervejeiro fosse amplamente reconhecido como aquilo que já é hoje: um setor estratégico para a economia portuguesa. E esse reconhecimento pode estar intimamente ligado a indicadores ambientais e explico porquê: Um estudo recente da Nova SBE demonstrou de forma muito clara a relevância da nossa atividade. O setor cervejeiro sustenta mais de 170 mil postos de trabalho, gera um impacto económico superior a 7,3 mil milhões de euros e representa cerca de 2,5% do PIB nacional. Trata-se de um dos maiores efeitos multiplicadores da economia portuguesa, gerando aproximadamente 68 postos de trabalho indiretos e induzidos por cada emprego direto criado. Mas estes números contam apenas parte da história. O setor cervejeiro é também um importante motor para a agricultura, para a indústria transformadora, para a logística, para o comércio, para a hotelaria, para a restauração e para o turismo. É uma cadeia de valor profundamente enraizada no território, composta não apenas por grandes operadores, mas também por um universo crescente de pequenas e médias empresas que investem, inovam e criam riqueza em todo o país. Por isso, o objetivo que gostaria de ver alcançado é simples: que a relevância económica, social e territorial do setor seja cada vez mais reconhecida nas políticas públicas e no enquadramento regulatório.
ENTREVISTA 17 A competitividade do setor não depende apenas da capacidade das empresas para investir e inovar. Depende também da existência de condições que promovam previsibilidade, estabilidade e confiança. E essa é uma questão particularmente importante num momento em que as empresas enfrentam simultaneamente desafios relacionados com a transição ambiental, a implementação de nova regulamentação europeia, os custos de contexto e a necessidade de continuar a investir em inovação e sustentabilidade. É por isso que a APCV tem vindo a defender junto do Parlamento e do Governo a criação de um quadro plurianual de estabilidade para o Imposto sobre o Álcool e as Bebidas Alcoólicas (IABA). Não se trata apenas de uma questão fiscal; trata-se de criar condições para que as empresas possam planear, investir, modernizar instalações, acelerar projetos de sustentabilidade e reforçar a sua competitividade. Países como Espanha compreenderam a importância desta previsibilidade e mantêm há décadas um enquadramento estável para o setor. Se queremos um setor mais sustentável, mais inovador e mais competitivo, precisamos também de um enquadramento que permita às empresas olhar para o futuro com maior segurança e capacidade de planeamento. Porque um setor que gera emprego, dinamiza o turismo, apoia milhares de empresas e cria valor ao longo de toda a cadeia económica não deve ser visto apenas como uma fonte de receita fiscal. Deve ser reconhecido como um parceiro estratégico do desenvolvimento económico e social de Portugal. Quando olha para os exemplos internacionais mais avançados, que empresa, projeto ou mercado considera uma referência para o setor cervejeiro português em matéria de sustentabilidade e o que podemos aprender com esse caso? Existem exemplos muito interessantes em países como Alemanha, Bélgica, Países Baixos ou Dinamarca, sobretudo no que respeita a sistemas de reutilização, recolha de embalagens e integração da economia circular. São mercados que merecem atenção e dos quais podemos retirar ensinamentos importantes. Contudo, não acredito que a sustentabilidade se faça através da simples replicação de modelos. Cada mercado tem as suas características próprias e Portugal parte também de uma posição muito sólida. O setor cervejeiro português apresenta um longo historial de reutilização de embalagens, forte ligação à indústria vidreira nacional, elevados níveis de incorporação de materiais reciclados e um compromisso crescente com a eficiência hídrica, energética e a valorização de recursos ao longo da cadeia de valor. A principal lição dos exemplos internacionais mais bem- -sucedidos não está necessariamente na tecnologia ou nas metas que adotaram. Está na capacidade de criar ecossistemas colaborativos, onde indústria, consumidores, retalho, academia e poder público trabalham de forma alinhada para atingir objetivos comuns. Aliás, acredito que existe uma inovação muitas vezes esquecida: a colaboração. Os desafios ambientais são demasiado complexos para serem resolvidos isoladamente. O futuro passa por mais cooperação entre empresas, universidades, produtores agrícolas, distribuidores, decisores públicos e, naturalmente, consumidores. O desafio para Portugal não é copiar soluções estrangeiras. É continuar a construir um modelo próprio, assente nas boas práticas que já existem, reforçando aquilo que fazemos bem e acelerando a inovação onde ainda podemos evoluir. Sustentabilidade não é uma corrida para chegar primeiro: é um compromisso contínuo de melhoria e de criação de valor para toda a sociedade e de deixar legado para as gerações futuras. n
18 SUSTENTABILIDADE NO SETOR DAS BEBIDAS Do alambique à economia circular: uma família que destila inovação e sustentabilidade Há empresas que nascem de um plano de negócios. Outras começam muito antes disso, alimentadas por uma paixão que cresce ao longo dos anos. Foi esse o percurso da Lemos Figueiredo – Adega & Destilaria de Alcobaça, cuja história começou numa garagem, entre pequenos alambiques e experiências de destilação que, inicialmente, eram apenas um hobby. Joana Peres Salomão e Mariana Lemos Figueiredo.
19 SUSTENTABILIDADE NO SETOR DAS BEBIDAS Mais de uma década depois, esse projeto familiar transformou-se numa destilaria sediada em Alcobaça, dedicada à produção de ginjas, gins, vermouth e bebidas sem álcool. À frente da empresa continuam Salomão Lemos Figueiredo e a filha, Mariana Lemos Figueiredo, que conciliam a experiência ligada ao setor agroindustrial com uma aposta contínua na inovação, sustentabilidade e valorização do território. “Tudo começou na garagem. Sempre gostei de destilar e fazia-o como hobby. Em 2013 decidimos transformar essa paixão num projeto familiar”, recorda Salomão Lemos Figueiredo, managing director. O crescimento foi sempre gradual. A empresa investiu em novos equipamentos à medida das necessidades da produção, recusando uma expansão acelerada e privilegiando pequenos lotes que permitem preservar a qualidade e o carácter artesanal. À medida que o projeto evoluiu, a família assumiu um papel cada vez mais ativo nas diferentes etapas da atividade, das colheitas ao engarrafamento. Essa dimensão familiar continua a marcar a identidade da empresa. “Nunca quisemos massificar a produção. Preferimos crescer devagar, mantendo a qualidade e o carácter artesanal dos nossos produtos”. A RESPOSTA À PANDEMIA Quando a pandemia de COVID-19 interrompeu os planos da empresa, a Lemos Figueiredo encontrava-se a preparar mais uma campanha de produção de ginja. O álcool adquirido para a destilação acabou por ser utilizado na produção de álcool-gel, depois de obtidas as autorizações necessárias. “Foi uma coincidência feliz. Tínhamos álcool destinado à campanha da ginja e, quando surgiu a pandemia, percebemos que podíamos ajudar. O nosso confinamento foi passado a engarrafar álcool-gel”, recorda. Sem equipamentos preparados para embalagens de pequena dimensão, a produção iniciou-se de forma praticamente manual. Ao longo dos primeiros meses da pandemia, a empresa produziu cerca de 35 mil litros de álcool-gel, distribuídos por hospitais, farmácias, bombeiros, proteção civil, câmaras municipais e outras entidades. Segundo Mariana Lemos Figueiredo, marketing diretor, este período contribuiu para aumentar a notoriedade da marca, mas confirmou sobretudo a capacidade de adaptação da empresa perante uma situação excecional. SUSTENTABILIDADE INTEGRADA NO MODELO DE NEGÓCIO Muito antes de a sustentabilidade ganhar protagonismo nas estratégias
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