BF21 - iAlimentar

ENTREVISTA 14 Os indicadores são reveladores dessa evolução. Em média, cerca de 40% do volume comercializado pelo setor corresponde a embalagens retornáveis/reutilizáveis – e note-se que em 2024, correspondeu a 50% -, aproximadamente 67% do material incorporado nas embalagens é proveniente de material reciclado e 22,20% da energia consumida tem origem em fontes renováveis, incluindo autoprodução. O verdadeiro progresso e maior desafio está na capacidade de tornar a sustentabilidade uma responsabilidade partilhada por toda a cadeia de valor: da agricultura, à logística, à distribuição, à restauração, à hotelaria e ao turismo. A gestão eficiente da água é uma das maiores preocupações da indústria das bebidas. Que metas considera realistas para o setor nos próximos anos e que tecnologias poderão acelerar esse processo? A água ocupa um lugar absolutamente central no setor cervejeiro. Não estamos apenas a falar de um recurso da produção, estamos a falar do principal ingrediente da cerveja. Cerca de 93% de uma cerveja é água. Por isso, proteger este recurso é simultaneamente uma responsabilidade ambiental e uma necessidade estratégica para o futuro do setor. Mais do que definir uma meta única para todas as empresas, acredito que o caminho passa por uma melhoria contínua da eficiência hídrica, pela redução de perdas, pela reutilização de água sempre que tecnicamente possível e pela proteção dos recursos hídricos que sustentam a atividade cervejeira. O desafio não é simplesmente consumir menos água: é utilizá-la de forma cada vez mais eficiente ao longo de todo o ciclo produtivo, garantindo simultaneamente qualidade, segurança alimentar e circularidade. As alterações climáticas colocam novos desafios ao abastecimento de matérias-primas agrícolas. Como poderá a indústria cervejeira colaborar com os produtores para reforçar a resiliência da cadeia de valor? O setor cervejeiro português parte de uma posição particularmente interessante. Ao contrário do que acontece noutros mercados europeus, Portugal caracteriza-se por um forte consumo de cerveja produzida localmente. Mesmo muitas marcas internacionais presentes no mercado nacional são produzidas em território português. E também, todo o setor, desde as grandes como as PMEs, somos grandes compradores da matéria-prima nacional, tendo uma relação muito próxima com os seus fornecedores e com a economia nacional, desde a agricultura à indústria vidreira, passando pela logística e pela distribuição. Naturalmente, existem desafios. No caso da cevada, por exemplo, a produção nacional representa atualmente apenas uma parte das necessidades da indústria (cerca de 20%), o que obriga à importação de matéria-prima, sobretudo de mercados próximos como Espanha e França. Ainda assim, procuramos privilegiar cadeias de abastecimento de proximidade, tanto por razões de segurança de abastecimento como pela redução da pegada associada ao transporte. É precisamente por isso que vemos um enorme potencial no reforço da produção nacional. O setor cervejeiro tem vindo a colaborar ativamente com diferentes entidades da fileira agrícola e participa em iniciativas como a plataforma +CEREAIS, que procura aumentar a produção nacional de cereais e reduzir a dependência externa. Acreditamos que Portugal reúne condições para reforçar a produção de cevada e outras matérias-primas estratégicas, criando valor para os agricultores, para a indústria e para o país.

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