ENTREVISTA 15 A cerveja começa muito antes da produção industrial: começa no campo. Por isso, a resiliência da cadeia de valor passa por aproximar a investigação científica, a produção agrícola e a indústria cervejeira, criando condições para reforçar a produção nacional de matérias-primas e reduzir dependências externas sempre que possível. Um bom exemplo desta cooperação é o Comité de Cevada e Malte, uma estrutura setorial que junta os Cervejeiros de Portugal e o INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, através do Polo de Elvas. O papel desta cooperação é particularmente relevante na definição e atualização da Lista de Variedades Recomendadas de cevada dística para malte, publicada de dois em dois anos. Ao integrar estas listas e atualizações em plataformas de inovação e conhecimento do setor cerealífero, o Comité contribui para uma fileira mais informada, competitiva e preparada para responder aos desafios das alterações climáticas. A economia circular está a ganhar expressão em várias áreas da indústria alimentar. Que oportunidades identifica para a valorização de subprodutos da produção cervejeira e para a redução do desperdício ao longo da cadeia? O setor cervejeiro tem um histórico muito sólido de circularidade, seja na disponibilização de embalagens retornáveis, como barris e garrafas de vidro, seja na valorização de subprodutos. Existem oportunidades relevantes na valorização de subprodutos do processo produtivo cervejeiro, que podem encontrar aplicações na alimentação animal, na agricultura, na produção de energia ou noutras utilizações de valor acrescentado. O canal HORECA é particularmente relevante para o setor cervejeiro em Portugal, não apenas pelo peso que representa no consumo de cerveja, mas também pela relevância para o uso de embalagens retornáveis como os barris e garrafas de vidro (grades). Aqui as empresas asseguram sistemas de retorno, dessas embalagens, às suas unidades fabris para higienização, enchimento e volta ao mercado. Completa-se assim um modelo de circularidade. Ao mesmo tempo, somos um setor profundamente ligado à indústria vidreira nacional, uma cadeia de valor estratégica para o país. O vidro possui uma característica única: pode ser reciclado infinitamente sem perda de qualidade, tornando-se um dos melhores exemplos de circularidade aplicada à indústria alimentar. Por outro lado, estamos a acompanhar e a fazer parte integrante da implementação do Sistema de Depósito e Reembolso (SDR), que permitirá reforçar a recolha e valorização de embalagens de bebidas. Embora as latas representem atualmente uma parcela relativamente reduzida do consumo de cerveja em Portugal, cerca de 11%, este é um formato que tem vindo a crescer significativamente nos últimos anos, ao nível dos 30%. O SDR poderá desempenhar um papel importante na melhoria das taxas de recolha e reciclagem destes materiais, contribuindo para fechar ainda mais o ciclo dos recursos. Mas existe uma ideia que considero particularmente importante: antes de pensar em reciclar, devemos pensar em reutilizar. A reutilização continua a ocupar o topo da hierarquia da circularidade e o setor cervejeiro tem uma experiência histórica muito relevante nesta matéria. O desafio dos próximos anos será combinar reutilização, reciclagem de elevada qualidade e inovação tecnológica para continuar a reduzir o desperdício e maximizar o valor dos recursos ao longo de toda a cadeia. As novas regras europeias para embalagens e resíduos exigirão mudanças significativas. Como avalia a preparação do setor para responder a estas exigências e quais serão os maiores desafios? O setor está preparado para participar ativamente nesta transformação, mas não devemos subestimar a sua complexidade. O PPWR representa uma das mais profundas alterações regulatórias das últimas décadas em matéria de embalagens. Embora muitos dos seus efeitos só sejam plenamente visíveis nos próximos anos, as decisões que irão determinar a sua implementação prática estão a ser tomadas agora. O principal desafio será garantir que os objetivos ambientais são acompanhados por critérios técnicos sólidos e por uma implementação harmonizada entre Estados-Membros. Caso contrário, corremos o risco de criar complexidade adicional sem necessariamente obter melhores resultados ambientais. Esta preocupação é particularmente relevante porque o regulamento prevê que a Comissão Europeia publique orientações interpretativas sobre determinadas matérias apenas até fevereiro de 2027. No entanto, as empresas europeias estão já hoje a tomar decisões críticas de investimento, adaptação de linhas de produção, reorganização logística e planeamento operacional. Sem orientações claras e atempadas, existe o risco de diferentes EstadosMembros adotarem interpretações divergentes perante situações semelhantes, criando insegurança jurídica e potenciais distorções no funcionamento do Mercado Único. No caso da cerveja, esta questão assume especial relevância em matérias relacionadas com a logística e distribuição. Determinadas soluções de agrupamento e estabilização
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