ENTREVISTA 16 de embalagens continuam a desempenhar um papel importante para garantir a segurança, a integridade e o manuseamento eficiente dos produtos ao longo da cadeia de abastecimento. O debate não está em saber se estas soluções devem evoluir no futuro, mas sim em garantir que existe clareza sobre as circunstâncias em que podem ser consideradas necessárias e compatíveis com os objetivos do regulamento. Outro desafio importante prende-se com a necessidade de flexibilidade na implementação das novas regras de rotulagem e informação ao consumidor, assegurando que estas se adaptam às limitações técnicas dos diferentes tipos de embalagem sem gerar custos desproporcionados para benefícios ambientais ou informativos marginais. É neste contexto que a APCV, a nível nacional, e a The Brewers of Europe, a nível europeu, têm procurado sensibilizar os decisores para a importância de uma aplicação clara, coerente e exequível do PPWR. Um exemplo concreto é o apelo que estamos a dirigir ao Governo português para que acompanhe o non-paper promovido pela Chéquia, já subscrito por vários Estados-Membros, que solicita clarificação sobre aspetos técnicos do regulamento, nomeadamente em matéria de embalagens agrupadas, soluções de estabilização e logística de distribuição. Importa assinalar que a questão não é contestar, mas sim assegurar que as empresas dispõem de orientações claras e atempadas para poderem tomar decisões de investimento, adaptar linhas de produção e reorganizar operações logísticas sem correrem o risco de enfrentar interpretações divergentes entre Estados-Membros. Defender a sustentabilidade não significa escolher entre ambição ambiental e competitividade. Significa garantir que as medidas adotadas produzem benefícios ambientais efetivos, proporcionais e assentes em evidência, permitindo simultaneamente que as empresas continuem a investir, inovar e criar valor para a economia europeia. Que áreas da cadeia de valor da cerveja — agricultura, produção industrial, embalagem, logística ou energia — deverão concentrar os maiores investimentos em sustentabilidade nos próximos cinco anos? Os investimentos em sustentabilidade serão distribuídos por toda a cadeia de valor. Veremos investimentos significativos em eficiência energética, energias renováveis, reutilização e reciclagem de embalagens, sistemas de rastreabilidade, digitalização industrial e otimização logística. Mas também acredito que assistiremos a um reforço dos investimentos em modelos de reutilização e sistemas mais eficientes de reciclagem. A circularidade não depende apenas da embalagem: depende da capacidade de a recolher, transportar, higienizar e colocar novamente em circulação de forma eficiente. A inovação tecnológica está a transformar a indústria alimentar. Que soluções ou tendências considera que terão maior impacto na eficiência e sustentabilidade do setor cervejeiro na próxima década? Várias tendências terão um impacto significativo. A digitalização, como o uso de códigos QR nas embalagens, será uma ferramenta valiosa para fornecer informação detalhada aos consumidores, em linha com o futuro Passaporte Digital de Produto. Na produção, a aposta em fontes de energia renováveis serão cruciais. Finalmente, a implementação de sistemas de recolha inteligentes, como o Sistema de Depósito e Reembolso, otimiza a logística da economia circular para embalagens de uso único. Se tivesse de apontar um objetivo ou indicador que gostaria de ver alcançado pelo setor cervejeiro português até ao final desta década, qual seria e por que razão o considera estratégico para a competitividade da indústria? Mais do que um indicador ambiental específico, gostaria que, até ao final desta década, o setor cervejeiro fosse amplamente reconhecido como aquilo que já é hoje: um setor estratégico para a economia portuguesa. E esse reconhecimento pode estar intimamente ligado a indicadores ambientais e explico porquê: Um estudo recente da Nova SBE demonstrou de forma muito clara a relevância da nossa atividade. O setor cervejeiro sustenta mais de 170 mil postos de trabalho, gera um impacto económico superior a 7,3 mil milhões de euros e representa cerca de 2,5% do PIB nacional. Trata-se de um dos maiores efeitos multiplicadores da economia portuguesa, gerando aproximadamente 68 postos de trabalho indiretos e induzidos por cada emprego direto criado. Mas estes números contam apenas parte da história. O setor cervejeiro é também um importante motor para a agricultura, para a indústria transformadora, para a logística, para o comércio, para a hotelaria, para a restauração e para o turismo. É uma cadeia de valor profundamente enraizada no território, composta não apenas por grandes operadores, mas também por um universo crescente de pequenas e médias empresas que investem, inovam e criam riqueza em todo o país. Por isso, o objetivo que gostaria de ver alcançado é simples: que a relevância económica, social e territorial do setor seja cada vez mais reconhecida nas políticas públicas e no enquadramento regulatório.
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