BF21 - iAlimentar

ENTREVISTA 17 A competitividade do setor não depende apenas da capacidade das empresas para investir e inovar. Depende também da existência de condições que promovam previsibilidade, estabilidade e confiança. E essa é uma questão particularmente importante num momento em que as empresas enfrentam simultaneamente desafios relacionados com a transição ambiental, a implementação de nova regulamentação europeia, os custos de contexto e a necessidade de continuar a investir em inovação e sustentabilidade. É por isso que a APCV tem vindo a defender junto do Parlamento e do Governo a criação de um quadro plurianual de estabilidade para o Imposto sobre o Álcool e as Bebidas Alcoólicas (IABA). Não se trata apenas de uma questão fiscal; trata-se de criar condições para que as empresas possam planear, investir, modernizar instalações, acelerar projetos de sustentabilidade e reforçar a sua competitividade. Países como Espanha compreenderam a importância desta previsibilidade e mantêm há décadas um enquadramento estável para o setor. Se queremos um setor mais sustentável, mais inovador e mais competitivo, precisamos também de um enquadramento que permita às empresas olhar para o futuro com maior segurança e capacidade de planeamento. Porque um setor que gera emprego, dinamiza o turismo, apoia milhares de empresas e cria valor ao longo de toda a cadeia económica não deve ser visto apenas como uma fonte de receita fiscal. Deve ser reconhecido como um parceiro estratégico do desenvolvimento económico e social de Portugal. Quando olha para os exemplos internacionais mais avançados, que empresa, projeto ou mercado considera uma referência para o setor cervejeiro português em matéria de sustentabilidade e o que podemos aprender com esse caso? Existem exemplos muito interessantes em países como Alemanha, Bélgica, Países Baixos ou Dinamarca, sobretudo no que respeita a sistemas de reutilização, recolha de embalagens e integração da economia circular. São mercados que merecem atenção e dos quais podemos retirar ensinamentos importantes. Contudo, não acredito que a sustentabilidade se faça através da simples replicação de modelos. Cada mercado tem as suas características próprias e Portugal parte também de uma posição muito sólida. O setor cervejeiro português apresenta um longo historial de reutilização de embalagens, forte ligação à indústria vidreira nacional, elevados níveis de incorporação de materiais reciclados e um compromisso crescente com a eficiência hídrica, energética e a valorização de recursos ao longo da cadeia de valor. A principal lição dos exemplos internacionais mais bem- -sucedidos não está necessariamente na tecnologia ou nas metas que adotaram. Está na capacidade de criar ecossistemas colaborativos, onde indústria, consumidores, retalho, academia e poder público trabalham de forma alinhada para atingir objetivos comuns. Aliás, acredito que existe uma inovação muitas vezes esquecida: a colaboração. Os desafios ambientais são demasiado complexos para serem resolvidos isoladamente. O futuro passa por mais cooperação entre empresas, universidades, produtores agrícolas, distribuidores, decisores públicos e, naturalmente, consumidores. O desafio para Portugal não é copiar soluções estrangeiras. É continuar a construir um modelo próprio, assente nas boas práticas que já existem, reforçando aquilo que fazemos bem e acelerando a inovação onde ainda podemos evoluir. Sustentabilidade não é uma corrida para chegar primeiro: é um compromisso contínuo de melhoria e de criação de valor para toda a sociedade e de deixar legado para as gerações futuras. n

RkJQdWJsaXNoZXIy Njg1MjYx