53 O IMPACTO DA IA E AUTOMAÇÃO NA PRODUÇÃO ALIMENTAR A inteligência artificial (IA) deixou de ser um conceito associado apenas ao futuro da indústria para começar a integrar o quotidiano de muitas operações produtivas. Na indústria alimentar, onde fatores como eficiência operacional, segurança alimentar, rastreabilidade e sustentabilidade assumem uma importância crescente, as tecnologias digitais começam a afirmar-se como ferramentas capazes de responder a alguns dos principais desafios do setor. Contudo, a realidade portuguesa continua marcada por diferentes níveis de maturidade digital. Como observa Deolinda Silva, diretora executiva da PortugalFoods, a indústria alimentar nacional tem vindo a fazer um percurso positivo na digitalização, mas apresenta diferenças significativas entre empresas, refletindo a diversidade do setor e a predominância de micro e pequenas empresas, nem sempre com a mesma capacidade de investimento. O diagnóstico realizado no âmbito do Roteiro para a Descarbonização do Setor Agroalimentar, desenvolvido pela PortugalFoods em parceria com a Inovcluster e a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada, mostra que existe uma consciência crescente sobre a importância da transformação digital. As empresas conhecem os princípios da Indústria 4.0 e reconhecem o potencial das novas tecnologias para aumentar a eficiência, a competitividade e a sustentabilidade. Ainda assim, a velocidade da adoção permanece desigual. Segundo a responsável, enquanto algumas organizações já recorrem a soluções avançadas de automação, monitorização em tempo real e análise de dados, uma parte significativa do tecido empresarial continua numa fase inicial do processo de digitalização. O desafio passa agora por acelerar essa transformação de forma transversal ao setor. ENTRE A AMBIÇÃO E A REALIDADE Apesar da crescente atenção em torno da IA, a adoção destas tecnologias permanece limitada em muitas empresas. Os dados recolhidos pela PortugalFoods mostram que a adoção de tecnologias mais avançadas continua a ser relativamente reduzida. As aplicações empresariais, como ERP e CRM, permanecem as soluções mais disseminadas no setor. Ferramentas de integração da cadeia de abastecimento e conectividade operacional, como EDI e IoT, começam a ganhar espaço, mas ainda com uma expressão limitada. Já a IA, os gémeos digitais e a realidade aumentada ou virtual permanecem longe da utilização generalizada, sendo ainda consideradas tecnologias emergentes por grande parte das empresas. Esta situação ajuda a explicar porque continua a existir um desfasamento entre o potencial da IA e a sua utilização efetiva. Como refere Deolinda Silva, antes de implementar IA é necessário garantir condições básicas que nem todas as empresas possuem: processos digitalizados, dados estruturados e infraestruturas tecnológicas adequadas. A estes fatores juntam-se a necessidade de desenvolver competências especializadas, preparar equipas para novas formas de trabalho e demonstrar o retorno económico dos investimentos, uma questão particularmente sensível para muitas PME. Na perspetiva da PortugalFoods, acelerar a transformação digital implica não apenas investir em tecnologia, mas também reforçar competências, promover projetos-piloto e estimular a colaboração entre empresas, universidades, centros de investigação e entidades de interface. A responsável destaca, neste campo, o trabalho desenvolvido no âmbito do projeto DigitalFOOD, promovido em parceria com a Fraunhofer Portugal (AICOS), que inclui workshops de ideação em IA destinados a ajudar as empresas a identificar oportunidades concretas de aplicação destas tecnologias e a transformá-las em projetos implementáveis. Na sua perspetiva, a prioridade até 2030 passa por consolidar as bases da transformação digital, criando as condições para que, numa fase seguinte, tecnologias como a IA, a automação avançada e os gémeos digitais assumam um papel mais relevante na competitividade do setor. Deolinda Silva, diretora executiva da PortugalFoods. O projeto DigitalFOOD é promovido pela PortugalFoods e pela Fraunhofer Portugal (AICOS).
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